O que aprendi com a Fiona

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Ao contrário do que muitos podem pensar, a Fiona em questão não é a personagem do Filme Shrek. Se trata de uma fêmea de Rottweiler que meu irmão comprou quando ainda era filhote e veio para casa com seus quarenta e poucos dias.

Rottweilers filhotes são adoráveis bolinhas de pêlo e eu já sabia disso pois conhecia o Monstrão, outro Rottweiler que meus pais optaram por criar para dar segurança à casa. O Monstrão não era puro e quando cresceu ficou mais fácil de notar a diferença, pois era mais alto do que um de raça pura, porém menos forte. Mas era um Rottweiler grande e metia medo em qualquer um. Pelo menos até começarmos a brincar com ele. Era um brincalhão e tinha espírito de criança. Cresceu só na estatura.

Quando meu irmão comprou a Fiona para fazer companhia ao Monstrão, ele já tinha seus oito anos e como a idéia de formar um casal para que o Monstrão deixasse seus herdeiros era real, sugeri o nome dela. A parceira do bruto bonzinho. Meu irmão gostou e assim ela foi batizada.

Conheci a Fiona quando ela já tinha quase três meses. Também brincalhona, gostava de morder – como todo filhote – mas, acima de tudo, gostava de colo. Não seria problema para um cão de porte pequeno, mas à medida que ela foi crescendo o problema foi se tornando realidade. Menos para ela, pois não importa se ela cabia no colo das pessoas. Ela queria colo!

À época, morava fora e só a via quando visitava minha família. Lá pela quarta vez que a encontrei, aconteceu algo marcante que fez com mudasse minha atitude com ela. Ela já estava quase no tamanho que tem hoje e estava com o Monstrão no quintal. Meu irmão e meu pai aconselharem que eu os visse através da janela, pois tinham receio que ela me estranhasse, afinal não a via a tempos e, agora, aquela mordidinha de filhote brincalhona poderia fazer um verdadeiro estrago.

Quando me avistaram, se apoiaram nas patas traseiras e com as dianteiras tocaram a grade da janela. Ambos com aquele olhar dócil, orelhas abaixadas e língua para fora. Expressão que todo cão faz quando quer carinho. Quando enfiei a mão pela grade, na direção do Monstrão, a Fiona tomou a frente para receber carinho antes. O Monstrão não gostou e tentou se impôr, latindo e simulando uma mordida. Retirei a mão de imediato. Sei que não tentou me morder, mas sei que acidentes acontecem quando pessoas tentam separar conflitos entre cães e acabam sendo mordidas.

Mas a minha reação causou estranheza na Fiona. A expressão dela mudou e as orelhas foram posicionadas para trás. Quem conhece um pouco da linguagem canina, sabe que fazem isso quando se sentem ameaçados e um cão, quando se sente ameaçado, tende a atacar. Nessa hora, fiquei com medo. Se eu percebi a mudança de expressão dela, ela também percebeu a minha. E cães tem mais sensibilidade para identificar certas coisas e certamente ela identificou o medo. A reação natural dela foi latir e avançar na grade da janela. E quem conhece ou já viu/ouviu a Fiona, sabe que o latido dela é assustador. Muito mais do que de qualquer outro cão que já conheci.

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.” H.P. Lovecraft

Naquele momento, esqueci da bolinha de pêlos com quem brincava meses antes e só via um cão considerado de raça violenta, cuja mordida tem força superior a 150 kgs. O estereótipo vulgar. Literalmente, julguei pela aparência. Por medo e porque era a coisa mais confortável que acreditei naquele momento.

Nas vezes seguintes em que a encontrava, sempre com ela presa no canil, me aproximava e ela ficava parada, esperando minha reação. Como não ficava muito tempo por ali, sempre que virava as costas, ela começava a latir. Essa situação se repetiu por alguns anos. Cheguei ao ponto de pensar que era uma cadela sem solução, que teria que ser adestrada, pois tinha receio de que ela atacasse meus pais. Mas com eles e com meus irmãos, o comportamente dela sempre foi dócil. Eles me falavam isso e eu teimava em não acreditar.

Até o momento em que tomei a decisão de mudar a situação. Assistindo um desses programas onde adestradores treinam cães que seriam considerados casos perdidos, vi que a Fiona não era tão rebelde e violenta assim. Ela late com estranhos, coisa que todo cão de guarda faz, mas ela não tentava me atacar e não latia de imediato.

Os adestradores usam pequenos biscoitos para “parabenizar” o cão quando ele age de maneira correta e, no meu caso, os biscoitinhos foram substituídos por pães. Ela adora pão! Assim, enchi o bolso com pedaços de pão e fui até o canil dela. Ao chegar, ela me encarou com a expressão de sempre, aquela de que aguardava a minha reação. Naquele momento, mesmo com cada um do seu lado da grade, foi quando pensei comigo mesmo que enfrentaria aquele medo. A expressão dela ficou menos tensa. Mostrei um pedaço de pão e ela ficou ansiosa. Joguei o pão e ela o engoliu em duas “bocadas”. A segunda, só por garantia mesmo. Logo que terminou, voltou à expressão de expectativa. Abaixei próximo à ela, com o intuito de encarar olho no olho, como que tentando dizer: “quero ser seu amigo”. Após alguns segundos de encarada, quando percebi o medo (meu) se aproximando, tirei outro pedaço de pão do bolso. Ela novamente ficou na expectativa. Me levantei, joguei o pão e assim que ela abocanhou, me virei de costas e sai. Ela não latiu.

Fui repetindo o ritual e, à medida que ganhava confiança, não só me abaixava próximo à ela, como também pedia a pata, a outra e sempre era atendido. Comecei a fazer módicos carinhos, até o momento que passei a dar ração na boca dela. Sempre tendo ela de um lado da grade e eu de outro. A confiança foi aumentando e chegou o dia que selamos de vez nossa amizade: levei ela para dar um passeio. Como todo cão, ela adora passear e sempre volta exausta e alegre destes passeios.

Mas, naquele dia, eu é quem era o mais alegre da casa. Contei para todos e alguns até desconfiaram. Meu irmão falou que era questão de tempo, afinal ele a conhece como ninguém. E ela também o respeita como ninguém.

Ela acabou ganhando um peso extra devido à quantidade de pães e outras comidas que eu ofertava, mas tentei compensar a levando para passear cada vez mais. E também brincando com bolinha ou outra brincadeira que ela inventa. Ela continua gostando de carinho de uma forma que só ela gosta. Como ela não cabe mais no colo, ela se apoia na parede sobre as duas patas traseiras para que façamos carinho ou a apalpemos. Posição similar ao do tradicional “baculejo”. E não adianta fazer carinho só com uma mão. Assim que ela vê a outra dando bobeira, ela a empurra, seja com uma das patas ou o focinho, no sentido do corpo dela. Afinal, temos duas mãos, então porque haveríamos de fazer carinho com uma só?

Ela se tornou uma grande amiga e então refleti sobre o tempo que me afastei dela. Imagino a reação dela na primeira vez que ela latiu e avançou na janela, quando me assustei pensando que ela queria me atacar. Hoje sei que aquele latido, para ela, poderia significar: “ei! Você brincava comigo. Por que não quer mais brincar?”. Ou então nas vezes em que ela latia assim que eu virava as costas: “Volte aqui! Você não me fez carinho hoje!”.

Imagine uma pessoa que sempre recebeu carinho de outra e, repentinamente, parou de receber. Qual seria a reação mais comum? Reclamar, chorar, discutir (DR) e por aí vai. No caso da Fiona, ela só sabe latir. Como as pessoas interpretam o latido dela é que é o dilema.

Essa comparação pode soar exagerada para muitos, mas, não para mim. Afinal, estamos falando de amor.

 

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