O que continuo aprendendo com a Fiona

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Quem me conhece ou acompanha meus textos já deve ter visto um que escrevi falando sobre a Fiona (O que aprendi com a Fiona). Resumidamente, para quem ainda não a conhece, a Fiona em questão não é a esposa do Shrek. É uma linda Rottweiler fêmea que, após um período de estranhamento comigo devido à distância (morava em SP na época que ela entrou para nossa família), se tornou uma grande companheira quando voltei a morar em MG. Tenho aprendido muita coisa no convívio com ela e relatarei mais uma coisa que ela me ensinou recentemente.

A Fiona adora seus passeios e eles foram um excelente mecanismo para estreitar nossa relação. É um cão de grande porte e, mesmo morando em casa com espaço considerável, é natural que queira caminhar distâncias maiores e conferir a vizinhança.

É também um momento onde explora coisas novas, pois, apesar dos trajetos serem quase os mesmos, sempre encontra cães novos, ou seus rastros (leia-se número 1 e número 2), pelo caminho, pessoas diferentes transitando pela rua e etc.

Ela fica muito feliz quando percebe que busquei a coleira e que iremos passear e retorna cansada, mas mais feliz ainda dos passeios. Quem tem cão sabe exatamente do que estou falando.

Dia desses estava brincando com ela aqui em casa e ela viu um pedaço de corrente. Naquele local não costuma ter nada pendurado, mas ali, naquele dia, a corrente estava lá. Percebi que ela ficou olhando atentamente e quando segurei a corrente e balancei, ela ficou chorosa. Perguntei o que era e apontei a corrente para ela, que sentou, na mesma posição que faz quando vou colocar a coleira nela e chorou novamente.

A coleira dela tem uma espécie de corrente, mas era bem diferente daquela que estava ali. Tentei explicar para ela que era diferente, mas não sei se entendeu. Voltamos a brincar, mas fiquei pensativo.

O que a corrente significa para ela? Por mais contraditório que possa parecer, significaria Liberdade? Ela prefere se ver presa e sufocada em troca de momentos efêmeros de Felicidade? E olha que, às vezes, é literalmente sufocada, pois ela pesa 50kg ou mais e tem uma força tremenda. Sem uma coleira com enforcadeira, eu que peso mais do que o dobro do peso dela, não conseguiria segurá-la em algum momento em que o instinto prevalecesse e ela partisse para o ataque.

Foi então que percebi que ela não é muito diferente de nós. Quantos de nós não nos prendemos a vícios que proporcionam felicidade momentânea? A hábitos que acreditamos que nos conduzirão à felicidade, mas nos aprisionam mais do que nos libertam?

Não falo apenas das fugas que as redes sociais e algumas tecnologias proporcionam. Antes mesmo da existência de muitas das tecnologias atuais, as pessoas já se deixavam iludir, seja por vaidade, comodismo e outros maus hábitos, em troca de momentos felizes.

É compreensível que cães e outros animais não tenham o discernimento para visualizar a corrente em sua forma abstrata. Até porque são mais suscetíveis ao condicionamento, pelo menos intrinsecamente.

Mas até quando os humanos insistirão em não enxergar as correntes?

Proust dizia que o trabalho de um escritor é como um instrumento ótico que faz com que o leitor consiga discernir algo que, sem aquele trabalho escrito, ele talvez nunca encontraria nele mesmo.

Então posso dizer que a Fiona é um ótimo livro a ser lido. E olha que nem cheguei na metade…

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